Análise a respeito dos caminhos da democracia na política de Vazante que tem como prefeito, Gabriel Rosa
Gregos e troianos. Dois povos separados por mitos, sangue e fogo. Ousaram desafiar os deuses, ergueram muralhas e lançaram destinos à sorte. No calor da batalha, o eco dos nomes reverbera até hoje — Aquiles, o imbatível, com sua fúria de semideus e seu calcanhar vulnerável; Heitor, o príncipe de Troia, herói humano e trágico, que carregou nos ombros a honra de um povo e caiu diante do inevitável. Durante dez anos, a guerra não foi apenas de lanças e espadas, mas de orgulho e vaidade, de glória e morte. A guerra entre Grécia e Troia foi, sobretudo, um épico sobre a impossibilidade de agradar a todos. Porque, no final, sempre haverá um lado vencido, sempre haverá uma lágrima não enxugada, um lamento que ecoa além das muralhas.
E, no entanto, a expressão “agradar a gregos e troianos” atravessou os séculos como um sussurro quase irônico, descrevendo o feito raro — quase impossível — de ser aceito por todos, de unir opostos que jamais se reconciliariam, de construir pontes onde sempre existiram abismos.
Na política de Vazante, o que se vê, no entanto, é o inverso: não há lutas épicas, não há duelos públicos, não há gritos na praça. Há, sim, um grupo dominante, seguro de si, e uma oposição quase calada. Eleito com expressivos 73,17% dos votos, o prefeito Gabriel Rosa não apenas reforçou sua liderança, como expôs, como uma ferida aberta, a fragilidade de uma voz dissonante. Um grupo dominante no poder e uma oposição praticamente ausente. Figuras da política local, como Dr. Marciano Borges, optaram por não se opor de maneira enfática ao jovem candidato na campanha passada. “Minha amizade com o Baiano”, disse, referindo-se ao pai de Gabriel, Virmondes (em memória), “me fez ficar um tanto quanto alheio”, completou.
Ao contrário da oposição, o grupo que governa Vazante desde 2016, e que já havia governado de 2001 a 2012, tem líder — uma verdadeira tribo com organização firme e liderança consolidada. À frente dessa tribo está o ex-prefeito Dr. Jacques, o homem que mais governou Vazante, a quem Antônio Andrade (em memória) confiou o bastão para conduzir o grupo. Essa liderança é respeitada e seguida à risca, sem dispersões ou fugas do alinhamento político, o que mantém o grupo coeso e dominante no cenário local.
Em qualquer sistema democrático saudável, a presença de um poder contraditório é vital. O embate de ideias, a fiscalização mútua e a possibilidade de alternância no poder são o sal da política — o que impede que a acomodação se instale e que o poder vire um trono inabalável. Quando não há concorrência, o debate esfria, as decisões se tornam mornas e a população perde sua representatividade.
Gabriel Rosa, é verdade, tem seus méritos. Seu estilo conciliador, discreto, sem pirotecnias, não desperta grandes animosidades nos debates — e talvez seja por isso que, dentro de seu próprio círculo, se avolumam os nomes mais fortes para uma eventual reeleição ou mesmo para alternativas dentro do grupo. Além dele e do vice-prefeito Jeancarlo, surgem possibilidades como Dr. Leonardo, Orlando Fialho e, sobretudo, Dr. Jacques — líder que conhece os bastidores do poder e é respeitado por sua habilidade em articular e unir forças. Em qualquer desacerto do atual prefeito, a sombra de Dr. Jacques o acompanhará, como o homem que o escolheu, que o bancou e que sempre poderá ser chamado de volta ao centro. O cenário aponta para a continuidade de um mesmo grupo no comando, tornando ainda mais distante a ideia de alternância no poder.
Mas toda história tem seus desvios, e na política de Vazante há uma peça fora do tabuleiro principal: Victor Amaral, atual presidente da Câmara. Jovem, articulado e com fome de protagonismo, Victor triplicou sua votação como vereador em 2024 e foi eleito presidente da Casa sem o aval direto do prefeito. Essa ousadia — de conquistar espaços sem a bênção explícita — pode ser o embrião de algo novo. Se conseguir romper a imagem de “aliado rebelde” e construir uma identidade própria, Victor pode se tornar o contraponto — ou se perder nos caminhos tortuosos das articulações.
Haverá algum dissidente? Um nome forte surgirá, de repente, das sombras da oposição? Ainda é cedo para cravar. Mas uma coisa é certa: a ausência de competição não pode ser naturalizada. O desafio da oposição não é apenas encontrar um nome — é construir um projeto, resgatar um propósito e reconectar com a sociedade. Só assim a democracia local deixará de ser um consenso morno para voltar a ser o que deve ser: um campo vibrante de ideias, um espaço onde diferentes vozes ecoam e se enfrentam — como gregos e troianos, sim, mas pelo bem maior do povo.





