Presidente da ABIEC: exportações de carne aos EUA estão totalmente paralisadas

Nesta quarta-feira (16), o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC), Roberto Perosa, afirmou que as exportações de carne bovina do Brasil para os Estados Unidos estão completamente paralisadas. A suspensão é consequência da tarifa de 50% anunciada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, que começa a valer em 1º de agosto. […]

Roberto Perosa, presidente da Abiec - Foto: (Arquivo Pessoal/Divulgação)

Nesta quarta-feira (16), o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC), Roberto Perosa, afirmou que as exportações de carne bovina do Brasil para os Estados Unidos estão completamente paralisadas. A suspensão é consequência da tarifa de 50% anunciada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, que começa a valer em 1º de agosto.

Contratos em risco e perdas milionárias

Com o anúncio da medida, as indústrias interromperam imediatamente a produção de cargas destinadas ao mercado norte-americano. Segundo Perosa, há risco de perda de até US$ 160 milhões em contratos já firmados. Cerca de 30 mil toneladas de carne foram abatidas, processadas e estão nos portos ou em trânsito, sem garantia de entrada nos Estados Unidos.

A principal preocupação envolve a interpretação da nova regra nos EUA, que considera a chegada da carne no país — e não a data do embarque ou assinatura do contrato — como referência para aplicação da tarifa. Isso torna incerta a situação de lotes já produzidos sob exigências específicas do mercado americano, com custo médio de US$ 5.500 por tonelada. Redirecionar essas cargas a outros mercados resultaria em perdas, já que o valor pago fora dos EUA é de cerca de US$ 3.500 por tonelada.

De mercado em expansão à incerteza

Até junho, o Brasil havia exportado 200 mil toneladas de carne bovina aos Estados Unidos em 2025, e a expectativa da ABIEC era de alcançar 400 mil até o fim do ano, superando as 229 mil toneladas registradas em 2024. O crescimento vinha sendo impulsionado pela demanda americana por cortes do dianteiro, usados na produção de hambúrgueres, e pela redução do rebanho local.

Segundo Perosa, o Brasil se consolidou como principal fornecedor da carne usada nesse segmento. Com a imposição da tarifa, esse fluxo foi interrompido.

Pressão por atuação diplomática

A ABIEC tem buscado articulação com o Itamaraty, o Ministério da Agricultura e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), liderado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin. O objetivo principal é negociar a prorrogação do início da vigência da tarifa, permitindo a entrada dos produtos já embarcados.

“Estamos pedindo ao governo dos Estados Unidos que postergue o início da cobrança, como já fez com outros países. A carne já está a caminho e não pode ser penalizada retroativamente”, disse Perosa.

Ele afirmou que não há possibilidade de judicialização imediata, pois isso exigiria uma disputa de Estado contra Estado na OMC, processo que levaria anos. “Precisamos de agilidade diplomática”, afirmou.

Impacto no mercado interno

O mercado americano representa cerca de 15% das exportações brasileiras de carne bovina, mas tem forte influência sobre o preço da arroba. Desde o anúncio da tarifa, a indústria reduziu a compra de bois, o que já impacta o preço pago ao produtor.

Perosa ressaltou que o país mantém mais de 150 mercados ativos, mas nenhum com o mesmo volume e preço dos Estados Unidos.

Redirecionamento enfrenta dificuldades

As empresas já estudam alternativas para redirecionar os lotes, mas enfrentam obstáculos logísticos, sanitários e comerciais. A carne destinada aos EUA é produzida sob encomenda, com certificações específicas e custo mais alto. “Não é um produto que pode ser simplesmente redirecionado. Se o comprador cancela, o prejuízo é imediato”, disse.

Carne brasileira não concorre com a americana, diz ABIEC

Segundo Perosa, a carne exportada pelo Brasil aos Estados Unidos não substitui a produção local, mas a complementa na fabricação de hambúrgueres. “Ela barateia a carne americana, fortalece o setor de food service e beneficia a classe média dos EUA.”

Ele criticou o caráter protecionista da medida e afirmou que ela prejudica as economias dos dois países. “Fica difícil aceitar que líderes estejam agindo contra o interesse de seus próprios países”, declarou.

Mesmo assim, ele acredita em uma possível reversão. “Trump tem comportamento errático. Já impôs barreiras, depois recuou. Acreditamos que ainda há margem para negociação. Mas a cada dia que passa, o prejuízo se materializa. Precisamos de resposta urgente”, concluiu.

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