Nessa quarta-feira, (23), produtores de laranja no Brasil avaliam a possibilidade de deixar as frutas apodrecerem nos pomares, diante da ameaça de novas tarifas impostas pelos Estados Unidos. O plano do presidente norte-americano, Donald Trump, prevê uma taxa de 50% sobre produtos brasileiros a partir de 1º de agosto, o que pode inviabilizar o comércio de suco de laranja com o país, que responde por 42% das exportações do setor.
Queda nos preços e incerteza no mercado
Com a possível barreira tarifária, os preços da laranja no Brasil despencaram. Em julho, a caixa da fruta caiu para R$ 44, quase metade do valor registrado no mesmo período do ano passado, segundo dados do Cepea, da Universidade de São Paulo (USP). A situação levou produtores a avaliar se vale a pena colher as frutas, já que a demanda pode não ser suficiente.
“Eu vejo que pode realmente já ficar fruto no pé por não ter mercado e você não vai gastar para tirar e não ter para quem vender”, afirmou Fabrício Vidal, produtor em Formoso (MG).
Dependência dos EUA e impacto bilionário
As exportações brasileiras de suco de laranja para os Estados Unidos somaram cerca de US$ 1,31 bilhão na safra encerrada em junho. Um aumento nas tarifas pode causar prejuízos em larga escala, uma vez que o Brasil é responsável por 80% da produção mundial de suco de laranja.
“Cada dia que vai chegando mais perto da entrada em vigor das tarifas aumenta a ansiedade em relação ao que pode acontecer”, declarou Ibiapaba Netto, diretor-presidente da CitrusBR, entidade que representa exportadores do setor.
Consequências para os consumidores
Nos EUA, a produção doméstica de suco de laranja caiu ao menor nível em 50 anos na safra 2024/25, com apenas 108,3 milhões de galões previstos, segundo o Departamento de Agricultura norte-americano. Atualmente, 90% do abastecimento do mercado interno é garantido por importações, sendo metade do consumo proveniente do Brasil, com marcas como Tropicana, Minute Maid e Simply Orange.
A nova tarifa anunciada por Trump representaria um salto de 533% em relação ao imposto atual, de US$ 415 por tonelada. Empresas como Johanna Foods, de Nova Jersey, já entraram na Justiça contra a medida, alegando “danos financeiros significativos e diretos”. A decisão também pode afetar Coca-Cola e Pepsi, que juntas representam 60% das vendas de suco de laranja nos EUA.
Dificuldade para encontrar novos mercados
O Brasil enfrenta obstáculos para substituir o mercado norte-americano. Países com maior poder de compra já impõem tarifas elevadas, como Índia e Coreia do Sul, e a China tem baixa demanda por suco de laranja. A União Europeia já absorve 52% das exportações brasileiras, deixando pouco espaço para compensar as perdas.
Exportar por meio de países intermediários, como a Costa Rica, já ocorre para reduzir tarifas atuais, mas, segundo Arlindo de Salvo, consultor especializado no setor, não está claro se a prática funcionará diante da nova taxa. A CitrusBR ressalta que tal triangulação não é aceita pelas regras da OCDE.
Produtores no limite
Em Formoso, agricultores relatam que o valor pago pela laranja já é um terço do registrado há um ano, tornando o custo de colheita quase inviável. “A única solução seria encontrar outros mercados. Mas só que são coisas que não acontecem do dia para a noite”, lamentou o produtor Ederson Kogler.





