Programa secreto de Israel pode ter 90 bombas atômicas, indicam especialistas

Neste sábado (21), diversas fontes afirmam que Israel mantém um programa nuclear secreto desde a década de 1950, com estimativas que indicam a posse de pelo menos 90 ogivas atômicas. Esses números são apontados pela Federação de Cientistas Americanos e pela Associação de Controle de Armamentos, ambas dos Estados Unidos. Algumas fontes sugerem que o […]

Israel Katz com o Chefe do Estado-Maior, Tenente-General Eyal Zamir. Foto: Ariel Hermoni / Ministério da Defesa via Facebook.

Neste sábado (21), diversas fontes afirmam que Israel mantém um programa nuclear secreto desde a década de 1950, com estimativas que indicam a posse de pelo menos 90 ogivas atômicas. Esses números são apontados pela Federação de Cientistas Americanos e pela Associação de Controle de Armamentos, ambas dos Estados Unidos. Algumas fontes sugerem que o arsenal israelense pode ser ainda maior. Israel nunca confirmou nem negou oficialmente a existência das bombas atômicas, mas é o único país do Oriente Médio que não assinou o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), o que o impede de se submeter às inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), ligada à Organização das Nações Unidas (ONU). Essa situação contraria o apelo feito pelo Conselho de Segurança da ONU em 1981.

Início do programa nuclear e apoio internacional

O professor de história da Universidade de Brasília (UnB), Luiz Alberto Moniz Bandeira, relatou em seu livro A Segunda Guerra Fria que Israel iniciou a construção de sua usina nuclear na cidade de Dimona, ao sul de Jerusalém, “bem antes de 1958”, por meio do projeto Soreq Nuclear Research Center, operado pela Israel Atomic Energy Commission (IAEC). O programa nuclear israelense recebeu apoio da Comissão de Energia Atômica da França, que forneceu materiais e cientistas para auxiliar na construção dos reatores. Segundo o historiador Manoel Bandeira, Israel começou a fabricar armas nucleares sem informar os Estados Unidos, país que forneceu os primeiros reatores no âmbito do programa “Átomos para a Paz”. A CIA só descobriu a existência da instalação cerca de três anos depois.

Controvérsias e críticas sobre a postura internacional

O professor de relações internacionais Robson Valdez, do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), destacou que o apoio incondicional a Israel revela uma postura hipócrita das potências ocidentais. Segundo ele, enquanto o Irã enfrenta severas cobranças por seu programa nuclear, Israel manipula, desenvolve e mantém seu arsenal à revelia da AIEA, sem sofrer sanções ou pressões equivalentes.

Para o cientista político Ali Ramos, especialista em história da Ásia e do mundo islâmico, os Estados Unidos tinham conhecimento do programa nuclear israelense, mas optaram por não agir. Ramos afirma que órgãos de segurança norte-americanos foram influenciados por grupos de lobby favoráveis a Israel e que informações importantes podem ter sido omitidas aos presidentes americanos.

Ministro da Defesa, Israel Katz, e o chefe do Estado-Maior, tenente-general Eyal Zamir – Foto: EFE/Ministério da Defesa de Israel

Estimativas e denúncias históricas

Entre as fontes que indicam a existência do programa secreto, o historiador Moniz Bandeira cita declarações de Carl Ducketts, alto funcionário da CIA, que em 1968 afirmou que Israel possuía três bombas atômicas fabricadas com urânio enriquecido contrabandeado dos EUA. Outro documento importante é a revelação do agente do Mossad Ari Ben-Menashe, que afirmou que Israel fabricou 13 bombas nucleares entre 1968 e 1973, cada uma com poder destrutivo três vezes maior do que as bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki.

Em 2008, o ex-presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, afirmou que Israel teria cerca de 150 ogivas nucleares, enquanto outras estimativas indicam que o arsenal pode chegar a 300 bombas. O programa foi denunciado em 1986 pelo ex-técnico nuclear israelense Mordechai Vanunu, que revelou detalhes ao jornal britânico Sunday Times. Vanunu foi preso por 18 anos, incluindo 11 anos em confinamento solitário, condenado por traição e espionagem. Em entrevista à BBC, ele declarou que não se arrepende de ter exposto o programa nuclear, afirmando que sua intenção era informar o mundo sobre ações mantidas em segredo.

Posição da ONU e ausência de controle internacional

Após o ataque israelense ao reator nuclear de Osirak, no Iraque, em 1981, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a resolução 487, que condenou o ataque, pediu que Israel se abstivesse de ações similares e ressaltou a ilegalidade de ataques a instalações nucleares. O órgão também apelou para que Israel colocasse suas instalações nucleares sob o controle da AIEA, o que nunca foi atendido. Em 2009, a AIEA reiterou o pedido para que Israel assinasse o TNP e se submetesse a inspeções, mas o país recusou, alegando ser um direito soberano decidir sobre sua adesão a tratados internacionais.

O cientista político Ali Ramos afirmou que o programa nuclear de Israel é o único do mundo que não passa por inspeções da ONU ou da AIEA, diferentemente dos programas nucleares dos Estados Unidos, Reino Unido e França, que têm algum nível de controle internacional.

Uso estratégico do programa nuclear

O programa nuclear também teve papel relevante na expansão territorial de Israel. Criado em 1948, Israel assumiu o controle da Palestina histórica em 1967, após expulsar tropas da Jordânia e do Egito da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. Em 1973, durante a Guerra do Yom Kippur, o general Moshe Dayan, então ministro da Defesa, ordenou o alerta nuclear e colocou 24 bombardeiros B-52 armados com 13 bombas atômicas em prontidão para responder a um ataque das tropas do Egito e da Síria.

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