Nessa terça-feira (9), um medicamento desenvolvido a partir de uma proteína extraída da placenta humana foi apresentado em São Paulo (SP) e pode representar um marco na medicina. Batizado de polilaminina, o fármaco é resultado de 25 anos de pesquisas conduzidas pela bióloga Tatiana Coelho de Sampaio, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Estímulo à regeneração da medula espinhal
De acordo com os pesquisadores, a polilaminina é capaz de estimular neurônios maduros a rejuvenescerem e formarem novos axônios, estruturas responsáveis por conduzir impulsos elétricos no organismo. Esse mecanismo abre caminho para a regeneração da medula espinhal, até então considerada inviável pela ciência.
Casos de pacientes tratados
O medicamento foi desenvolvido em parceria com o laboratório brasileiro Cristália e já foi aplicado de forma experimental em pacientes, apresentando resultados relevantes.
Entre os oito voluntários que participaram dos estudos acadêmicos, dois estiveram presentes na apresentação.
O bancário Bruno Drummond de Freitas, 31 anos, ficou tetraplégico após um acidente de trânsito e recebeu a aplicação da polilaminina 24 horas após o trauma. “Em cinco meses, mais ou menos, eu já estava completamente recuperado. Tenho uma rotina normal, faço esportes e não passo mais por nenhum tipo de tratamento”, relatou.
Bruno contou que os primeiros sinais de melhora surgiram com movimentos discretos no dedo do pé, evoluindo até a recuperação total da mobilidade. “Hoje em dia, consigo me movimentar inteiro, claro que com certas limitações… consigo levantar, andar, dançar, voar. Isso me garantiu minha independência”, afirmou.
Outro caso é o da atleta paralímpica de rugby Hawanna Cruz Ribeiro, 27 anos, que sofreu queda de dez metros em 2017 e ficou tetraplégica. Três anos depois, recebeu a polilaminina e relatou evolução significativa. “Recuperei entre 60% e 70% do controle do meu tronco. Sinto que a sensibilidade na minha bexiga voltou, mas ainda não sou independente nessa questão. Não tenho nenhuma dúvida da minha melhora”, declarou.
O neurocirurgião Marco Aurélio Brás de Lima, que participou dos estudos, ressaltou o caráter inédito da descoberta: “Isso é uma coisa inédita. Porque nenhum estudo tinha demonstrado isso até o momento. No mundo.”
Resultados em animais
Os testes também envolveram animais. Em cães com lesões não induzidas, houve recuperação total da marcha, enquanto em ratos os efeitos foram observados em apenas 24 horas. Em 2021, seis cães com lesões antigas foram tratados; quatro deles voltaram a se movimentar. O resultado foi publicado em revista científica internacional.
O laboratório Cristália já iniciou a produção do medicamento em sua planta de biotecnologia, utilizando placentas doadas por mulheres saudáveis acompanhadas durante a gestação. “Hoje é o dia mais feliz da minha vida. Estamos vivendo um dia histórico para o mundo”, declarou Ogari Pacheco, fundador e presidente do conselho do laboratório.
Expectativa e cautela
Apesar do entusiasmo, especialistas destacam a necessidade de cautela. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) ainda precisa autorizar estudos clínicos ampliados em humanos para confirmar a segurança da aplicação.
“Como foram testes acadêmicos, o que a empresa está fazendo são testes complementares para atender os requisitos regulatórios, especialmente de segurança”, explicou Claudiosvan Martins, coordenador de pesquisa clínica da Anvisa.
Se aprovado, o procedimento será inicialmente disponibilizado apenas a pacientes diagnosticados com lesão medular recente — até três meses após o trauma. Hospitais de São Paulo (SP), como o Hospital das Clínicas e a Santa Casa, já se preparam para as aplicações quando houver liberação.
A pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio reconhece que ainda há pontos em aberto, mas afirma ter confiança nos resultados. “O que me dá segurança é o retorno e a interação com quem está à minha volta e os resultados que estamos vendo. Tento fazer o meu melhor. Sou honesta em mostrar o que está acontecendo.”
Segundo os cientistas, embora os efeitos não sejam iguais em todos os pacientes, a aplicação precoce amplia as chances de recuperação. “Não vendemos ilusões, trazemos evidências… Experimentalmente, temos resultados promissores”, reforçou Ogari Pacheco.
O processo de patente da polilaminina já foi iniciado, mas pode levar anos até a conclusão. Pesquisadores acreditam, no entanto, que o tratamento pode se consolidar como uma das descobertas mais relevantes da medicina contemporânea.





