Nesta sábado (21), a valorização do bitcoin acima dos US$ 100 mil (R$ 550,34 mil) reacendeu o interesse de empresas listadas em bolsa por ativos digitais. Com isso, ganha força o movimento das chamadas “empresas de tesouraria cripto”, companhias que estão adotando o bitcoin como ativo estratégico em seus balanços e transformando sua estrutura para atuar diretamente nesse setor.
Empresas abertas aceleram aquisição de criptoativos
O modelo iniciado por Michael Saylor, com a então MicroStrategy — hoje rebatizada como Strategy — segue influente em 2025. Segundo a consultoria Architect Partners, desde abril, mais de 30 empresas de capital aberto anunciaram planos de adotar estratégias de tesouraria em cripto, somando um potencial de captação de US$ 19 bilhões (R$ 104,31 bilhões). No total, mais de 70 empresas públicas ao redor do mundo já acumulam mais de US$ 67 bilhões (R$ 367,83 bilhões) em bitcoin.
Essas companhias têm recorrido a fusões, emissões de ações e dívidas conversíveis para financiar a compra de tokens. A movimentação ocorre em meio a um cenário favorável, com os mercados regulados oferecendo alternativas para exposição ao bitcoin sem depender das corretoras tradicionais.
Destaques recentes do mercado
Na semana passada, a Trump Media and Technology, responsável pela rede Truth Social, levantou US$ 2,3 bilhões (R$ 12,63 bilhões) por meio da emissão de ações e títulos conversíveis — uma das maiores operações do tipo até o momento. Já nesta segunda-feira, o bilionário Justin Sun anunciou que sua plataforma Tron será listada nos Estados Unidos após uma fusão reversa com a empresa SRM Entertainment, da Nasdaq, com injeção prevista de até US$ 210 milhões (R$ 1,15 bilhão) em tokens TRX.
Outras empresas que mudaram seu foco para criptoativos também apresentaram forte valorização. A Janover, que passou a se chamar DeFi Development Corporation após focar em Solana, valorizou mais de 5.300% desde abril. A japonesa Metaplanet, que atua na hotelaria e migrou para o setor de cripto, acumula alta de 472% em 2025. A Strategy, pioneira nesse modelo, já valorizou 30% no ano e acumula 3.000% de alta nos últimos cinco anos.
Alavancagem e volatilidade impulsionam ações
Grande parte do desempenho expressivo dessas companhias é explicada pela alavancagem. Após captarem recursos via dívida ou ações, elas adquirem criptoativos e, com a alta nos preços, ampliam seus retornos. A exposição direta aos ativos também atrai investidores institucionais que preferem operar em ambientes regulados.
A volatilidade desses papéis, que acompanham o sobe e desce do mercado cripto, é outro atrativo. Fundos hedge e operadores de opções são alguns dos interessados nesse tipo de oscilação elevada. Para Jeff Park, da gestora Bitwise, há uma demanda crescente por veículos regulados que permitam exposição ao risco cripto dentro dos limites legais dos fundos tradicionais.
Crescimento por meio de fusões e aquisições
Como o processo tradicional de abertura de capital (IPO) é caro e demorado, muitas empresas estão optando por fusões com SPACs ou com companhias públicas já existentes, em operações conhecidas como fusões reversas.
Entre os exemplos, está a Twenty One Capital, apoiada pela Tether e pela SoftBank, que anunciou fusão com a Cantor Fitzgerald em um negócio avaliado em US$ 3,6 bilhões (R$ 19,76 bilhões). A SPAC da Cantor, que valia US$ 10,80 (R$ 59,44) há dois meses, hoje está cotada a US$ 35 (R$ 192,62).
Outro caso é o da Strive Asset Management, fundada por Vivek Ramaswamy, que anunciou fusão com a Asset Entities para iniciar estratégia de tesouraria em bitcoin. Desde o anúncio, as ações saltaram de US$ 0,60 (R$ 3,30) para US$ 13 (R$ 71,54), e atualmente estão cotadas a US$ 5,42 (R$ 29,83).
Jeff Park alerta que muitos dos ganhos nas ações ocorrem antes mesmo da conclusão das fusões: “Se você acredita que há uma avalanche de dinheiro prestes a entrar no bitcoin e todo mundo está esperando a aprovação de seus negócios, é melhor torcer para ser o primeiro”.
Especialistas veem euforia e risco de bolha
Apesar da alta, analistas observam sinais de euforia e riscos potenciais. Segundo Park, as novas tesourarias corporativas ainda não demonstraram capacidade real de gerar retorno com os ativos que mantêm: “Ainda não vimos uma exploração agressiva do lado esquerdo do balanço patrimonial”, afirmou.
Outro ponto de atenção é que esses ativos adquiridos acabam fora de circulação, o que reduz a oferta e potencializa oscilações no preço do bitcoin, podendo acelerar ainda mais a valorização — e os riscos.
Para Elliot Chun, da Architect Partners, o crescimento acelerado é resultado direto de uma engenharia financeira sofisticada: “Ações diretas, PIPEs, notas conversíveis, ATMs — é uma verdadeira aula de MBA sobre todas as estruturas possíveis para capital aberto”.
Um exemplo recente é a GameStop, que está usando mais de US$ 3 bilhões (R$ 16,47 bilhões) em dívida conversível para adquirir bitcoin. A empresa já investiu US$ 500 milhões (R$ 2,75 bilhões) em ativos digitais, mas ainda não explicou como pretende obter retorno com essa nova estratégia de tesouraria.
Chun destaca que muitos dos novos participantes não são experientes no mercado cripto: “Há um excesso de euforia. Há muita gente que não é nativa do setor e que não entende as complexidades de operar com essa classe de ativos”. Para ele, o atual cenário tem todos os elementos que costumam anteceder um novo inverno cripto.





