Morre o mineiro Sebastião Salgado, um dos maiores fotógrafos do mundo

Sebastião Salgado morreu em Paris aos 81 anos de idade. Nesta sexta-feira (23), Sebastião Salgado faleceu aos 81 anos, em decorrência de complicações causadas por uma malária contraída nos anos 1990. O fotógrafo residia em Paris, cidade que adotou como lar e base para muitos de seus projetos internacionais. A informação foi confirmada pelo Instituto […]

Sebastião Salgado em 18 de maio de 2021, em Paris — Foto: Joel Saget/AFP/Arquivo

Sebastião Salgado morreu em Paris aos 81 anos de idade.

Nesta sexta-feira (23), Sebastião Salgado faleceu aos 81 anos, em decorrência de complicações causadas por uma malária contraída nos anos 1990. O fotógrafo residia em Paris, cidade que adotou como lar e base para muitos de seus projetos internacionais. A informação foi confirmada pelo Instituto Terra, organização ambiental fundada por ele e sua esposa, a curadora e arquiteta Lélia Wanick Salgado, com quem dividiu a vida pessoal e profissional por mais de cinco décadas.

Uma trajetória que atravessou fronteiras

Natural de Aimorés, no interior de Minas Gerais, Salgado nasceu em 1944 em uma fazenda às margens do Rio Doce. Formado em economia pela Universidade Federal do Espírito Santo, completou o doutorado na França e chegou a trabalhar em organismos internacionais. Foi durante viagens a trabalho pela África, ainda como economista, que começou a fotografar — e percebeu que sua vocação estava nas imagens, não nos relatórios técnicos.

A partir de 1973, dedicou-se integralmente à fotografia. Com um olhar sensível e politizado, Salgado se destacou por sua capacidade de narrar, por meio da imagem, histórias de sofrimento, resistência e beleza. Seus ensaios ganharam destaque internacional pela profundidade e rigor com que abordavam temas sociais e humanitários, sempre respeitando os personagens retratados.

Seu trabalho o levou a mais de 100 países. Esteve em campos de refugiados na África, em minas no Brasil, em regiões de conflito no Oriente Médio e em comunidades indígenas isoladas da Amazônia. Com domínio técnico, estética apurada e forte conteúdo social, Salgado construiu uma carreira singular que une arte e denúncia. Suas fotos, sempre em preto e branco, tornaram-se marcas registradas de um estilo que influenciou gerações de fotógrafos e jornalistas.

Entre seus projetos mais emblemáticos estão Outras Américas (1986), sobre a vida rural no continente; Trabalhadores (1993), que retrata as condições laborais em diversas partes do mundo; Êxodos (2000), sobre os fluxos migratórios e populações deslocadas; e Gênesis (2013), um tributo à natureza e aos povos tradicionais. Cada um desses trabalhos foi fruto de anos de pesquisa, expedições e imersão nos locais fotografados.

Cinema, ativismo e reconhecimento mundial

Em 2014, sua vida foi retratada no documentário O Sal da Terra, dirigido pelo cineasta alemão Wim Wenders em parceria com Juliano Ribeiro Salgado, seu filho. O longa foi aclamado pela crítica, venceu prêmios importantes no Festival de Cannes e foi indicado ao Oscar de Melhor Documentário. A produção mostrou os bastidores das imagens, a rotina do fotógrafo e os dilemas éticos enfrentados ao longo da carreira.

Além da fotografia, Sebastião Salgado tornou-se referência em ativismo ambiental. Com a fundação do Instituto Terra, em 1998, ele e Lélia iniciaram um projeto ambicioso de reflorestamento na região do Vale do Rio Doce, devastada por décadas de desmatamento. A iniciativa já recuperou milhares de hectares de Mata Atlântica e se tornou modelo de restauração ecológica, educação ambiental e desenvolvimento sustentável.

Salgado também foi reconhecido com dezenas de prêmios e homenagens, entre eles o Prêmio Príncipe de Astúrias, a Medalha de Ouro da UNESCO e o título de embaixador da Boa Vontade da UNICEF. Sua obra integra acervos de museus como o MoMA, em Nova York, e o Centre Pompidou, em Paris, além de ter sido exibida em dezenas de países.

Ele deixa dois filhos, uma trajetória inigualável e um legado de imagens que continuam a provocar reflexão sobre o planeta e a humanidade. Mais do que um fotógrafo, Sebastião Salgado foi um contador de histórias visuais, um defensor da dignidade humana e um semeador de esperança — tanto nas florestas que ajudou a reconstruir quanto nos corações que tocou com sua arte.

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