Figura marcante da esquerda latino-americana, Mujica foi guerrilheiro dos Tupamaros, um grupo armado de inspiração marxista que atuou contra a ditadura militar no Uruguai.
Nesta terça-feira (13), morreu aos 89 anos o ex-presidente do Uruguai, José “Pepe” Mujica. A informação foi confirmada pelo atual presidente Yamandú Orsi, considerado um afilhado político do ex-líder. A causa da morte ainda não foi divulgada, mas em abril de 2024, Mujica revelou ter sido diagnosticado com um tumor no esôfago ao realizar um check-up. Além disso, ele já enfrentava uma doença autoimune que comprometia seus rins, agravando seu estado de saúde nos últimos meses.
Figura marcante da esquerda latino-americana, Mujica foi guerrilheiro dos Tupamaros, um grupo armado de inspiração marxista que atuou contra a ditadura militar no Uruguai. Durante os anos de repressão, ele passou quase 15 anos na prisão, incluindo longos períodos em confinamento solitário. Ao ser libertado em 1985, com a redemocratização, se lançou na política institucional, integrando a Frente Ampla, coalizão de esquerda que assumiria o governo em 2005 com Tabaré Vázquez.
Em 2010, foi eleito presidente, cargo que exerceu até 2015. Durante seu governo, o Uruguai se destacou por implementar políticas progressistas que ganharam projeção internacional. A legalização da maconha, o casamento igualitário e a descriminalização do aborto foram algumas das medidas que consolidaram o país como um laboratório de reformas sociais na América Latina. Mujica também ampliou os direitos trabalhistas e adotou políticas de redistribuição de renda, embora tenha enfrentado críticas de setores conservadores e empresários.
Além de suas ações políticas, Pepe ficou conhecido por seu estilo de vida austero. Ele rejeitava o luxo, morando em uma chácara modesta nos arredores de Montevidéu com sua esposa, Lucía Topolansky, também ex-guerrilheira dos Tupamaros e senadora. Durante seu mandato, Mujica doava cerca de 90% do salário presidencial para projetos sociais, mantendo apenas uma pequena parte para suas despesas básicas. Esse comportamento lhe rendeu o apelido de “o presidente mais pobre do mundo”, um título que ele rejeitava, afirmando viver apenas de forma “sóbria”.
O ex-presidente manteve estreitos laços com outros líderes da esquerda latino-americana, incluindo o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva. Os dois se aproximaram nos anos 2000, quando Lula e Mujica governavam seus respectivos países. Em 2019, o uruguaio visitou Lula na prisão em Curitiba, onde o brasileiro cumpria pena após ser condenado no âmbito da Operação Lava Jato. Na ocasião, Mujica declarou que Lula era alvo de uma perseguição política e o chamou de “irmão”. Ambos defendiam a integração regional e a luta contra a pobreza, reforçando a importância da unidade latino-americana.
Outro ponto marcante da trajetória dele foi sua atuação em fóruns internacionais. Em 2012, durante a Conferência Rio+20, ele fez um discurso contundente contra o consumismo e o modelo econômico que, segundo ele, estava destruindo o planeta. “Ou mudamos ou o sistema destrói o planeta”, afirmou, alertando para a necessidade de um desenvolvimento sustentável. Esse discurso repercutiu mundialmente, consolidando sua imagem de líder preocupado com as questões ambientais e sociais.
Mesmo após deixar a presidência, permaneceu ativo na política uruguaia, retornando ao Senado. No entanto, em 2020, decidiu renunciar ao cargo, citando problemas de saúde e o desejo de “descansar um pouco”. Em abril de 2024, ele revelou publicamente o diagnóstico de câncer no esôfago, mas continuou participando de eventos políticos e concedendo entrevistas. No último domingo (11), Yamandú Orsi já havia declarado ao jornal argentino Tiempo que o político passava por “um momento crítico de saúde” e que estavam tentando protegê-lo de ações que poderiam prejudicá-lo.
Agora, o Uruguai e a América Latina se despedem de um dos líderes mais icônicos e autênticos da região. Ele deixa um legado marcado pela simplicidade, pela defesa dos menos favorecidos e pela crítica ao consumismo desenfreado. Seu nome já está registrado na história como um exemplo de resistência, humildade e compromisso com a justiça social.





